Por Thiago Iusim Founder & CEO da Betshield Responsible Gaming
Com edição e adaptação da redação da Gaming365
O Jogo Responsável nunca esteve tão presente no discurso do mercado regulado de apostas no Brasil. Ele aparece nos sites, nos aplicativos, nos rodapés das campanhas, nos comerciais de TV e nos comunicados institucionais. Está escrito em todo lugar, acompanhado de selos, avisos e frases bem-intencionadas.
À primeira vista, parece que o tema está resolvido.
Parece que o setor amadureceu.
Parece que todo mundo faz a sua parte.
Mas quando se olha um pouco mais de perto, algo não encaixa.
O Jogo Responsável está lá — mas não está inteiro. É reconhecível, mas soa estranho. Como uma palavra lida rápido demais. Como algo que o cérebro entende, mas que a prática não confirma.
Parece, mas não é.
Quando o discurso chega antes do sistema
Na prática, boa parte do mercado ainda trata o Jogo Responsável como estética regulatória. Um elemento necessário para cumprir tabela, reduzir ruído e sinalizar boa vontade. Ele virou comunicação antes de virar operação. Letreiro antes de virar inteligência aplicada.
Não se trata de negar avanços. O tema existe, é citado, é defendido. O problema é mais sutil — e justamente por isso, mais perigoso.
O mercado confundiu:
- presença com profundidade
- visibilidade com efetividade
- intenção com estrutura
Dizer que se importa não é o mesmo que construir algo que funcione.
O que a regulação realmente exige
A Portaria SPA/MF nº 1.231/2024 deixa essa diferença muito clara. Ela não regulamenta intenções. Ela não pergunta se o operador acredita em Jogo Responsável.
Ela exige:
- Monitoramento contínuo
- Identificação de padrões de risco
- Ações proporcionais
- Rastreabilidade
- Governança
- Responsabilidade técnica
Em outras palavras:
não importa se você diz que faz — importa se você consegue provar.
É exatamente nesse ponto que a distância entre discurso e prática aparece.
A contradição que o mercado ainda não resolveu
O mesmo setor que opera com altíssimo nível de sofisticação em:
- aquisição
- CRM
- personalização
- retenção
- otimização de jornada
… ainda tenta lidar com comportamento de risco usando banners genéricos e links escondidos no rodapé.
O mercado domina leitura comportamental, mas hesita em aplicar essa mesma inteligência no ponto mais sensível da experiência: o risco.
Como se um aviso estático fosse suficiente para lidar com padrões dinâmicos.
Jogo Responsável não é custo — é infraestrutura
Existe um erro estratégico central nessa lógica.
Embora o Jogo Responsável seja hoje a principal blindagem da indústria regulada — muito além de qualquer obrigação normativa — muitos operadores ainda o enxergam como centro de despesa.
Mas a realidade é outra.
O Jogo Responsável:
- não concorre com crescimento
- sustenta o crescimento
- não reduz receita
- aumenta previsibilidade
Práticas efetivas de monitoramento e intervenção:
- aumentam o lifetime value
- reduzem churn invisível
- fortalecem confiança
- criam relações mais duráveis com o jogador
O operador que ajuda o jogador a manter o controle não perde dinheiro.
Ele ganha permanência.
Quando vira sistema, vira vantagem competitiva
Quando o Jogo Responsável deixa de ser aviso e passa a ser sistema, ele deixa de ser obrigação e vira ativo estratégico.
Ele:
- reduz exposição regulatória
- fortalece a licença social da indústria
- aumenta resiliência do mercado
- legitima o setor perante a sociedade
Ele não limita o mercado.
Ele o torna sustentável.
Parece, mas não é — ainda
Talvez seja por isso que essa frase descreva tão bem o momento atual.
Enquanto o Jogo Responsável continuar sendo tratado como aparência, o setor continuará sendo questionado.
Quando for entendido como:
- investimento
- infraestrutura mínima
- inteligência aplicada
… ele deixa de ser discurso e passa a ser maturidade.
Em algum momento, cada operador terá que decidir:
O Jogo Responsável será um custo a ser minimizado
ou uma estratégia a ser construída?
Mais cedo ou mais tarde, essa escolha define quem lidera o mercado — e quem apenas passa por ele.
🔎 Sobre o autor da análise
Thiago Iusim
Founder & CEO — Betshield Responsible Gaming
Especialista em proteção do jogador, compliance comportamental e sistemas de Jogo Responsável aplicados.
Ótimo artigo sobre os desafios do Jogo Responsável no Brasil! A análise de Thiago Iusim sobre a lacuna entre discurso e prática é muito pertinente. Isso me fez pensar: como os operadores podem implementar sistemas efetivos de monitoramento sem comprometer a experiência do jogador?
Recentemente encontrei uma análise interessante sobre soluções técnicas para esse problema no site https://igaming-solution.com – eles comparam plataformas que integram ferramentas de compliance comportamental diretamente na arquitetura do software. Será que essa abordagem modular poderia ajudar a resolver o dilema entre “presença e profundidade” que o artigo menciona?
Gostaria de saber a opinião do autor sobre como a tecnologia pode ajudar a transformar o Jogo Responsável de “letreiro” para “inteligência aplicada”, como ele mesmo descreve. Quais seriam os primeiros passos concretos para essa mudança?