Artigo originalmente publicado por Thiago Iusim (LinkedIn), adaptado pela redação da Gaming365.
Quem nunca se sentiu enganado ao chegar em casa, abrir uma barra de chocolate e perceber que aquilo não era exatamente chocolate, mas uma sopa de letrinhas escrita “sabor chocolate”?
A frustração é imediata. A sensação de ter sido levado a acreditar em algo que não era bem verdade também.
A embalagem promete uma coisa. O produto entrega outra.
Está tudo ali, tecnicamente correto, em letras pequenas. Mas não é isso que o consumidor espera quando compra. A sensação final não é de escolha consciente — é de frustração.
Esse mesmo mecanismo está cada vez mais presente em outro setor que cresce rapidamente no Brasil: o mercado de apostas online.
O que o jogador busca ao escolher um operador regulado
Quando um consumidor decide apostar em um operador regulado, ele não faz isso porque é mais barato — geralmente não é.
Ele faz porque busca segurança, atendimento, previsibilidade e confiança.
Confiança de que:
- o dinheiro não vai simplesmente desaparecer;
- existem regras claras;
- a marca responde;
- há mecanismos reais de proteção ao jogador.
O problema começa quando essa promessa não se sustenta na prática.
Quando o Jogo Responsável vira apenas discurso
Boa parte da indústria afirma praticar o Jogo Responsável, mas não pratica de verdade.
E quando isso acontece, o impacto não se limita a uma plataforma específica. O efeito é sistêmico.
Para o consumidor, não existe distinção técnica entre operadores. Existe apenas a percepção de um mercado que prometeu cuidado, proteção e responsabilidade — mas que, muitas vezes, entrega apenas discurso institucional.
Avisos genéricos.
Links escondidos no rodapé.
Frases prontas que transferem toda a responsabilidade para quem joga.
“Jogue com moderação.”
“Aposte com responsabilidade.”
Como se isso, por si só, fosse suficiente.
Não é.
Comportamento de risco é previsível — e prevenível
Comportamento de risco não surge de uma hora para outra.
Ele é progressivo. Dá sinais. Muda padrões. É mensurável. E, principalmente, é prevenível.
Ignorar isso e chamar de “responsabilidade” é o equivalente direto ao “sabor chocolate”:
tem rótulo, tem aparência, mas não tem conteúdo real.
É exatamente daí que nasce o conceito de “Jogo Sabor Responsável”.
A consequência vai além da regulação
Assim como “sabor chocolate” não é chocolate de verdade, Jogo Responsável que existe apenas no discurso não é responsabilidade de verdade.
A consequência disso não é apenas regulatória. Ela é reputacional.
Em uma indústria onde a palavra confiança sempre vem acompanhada de uma interrogação, reputação é o principal ativo.
E reputação não se constrói com aviso genérico — se constrói com sistema, processo e evidência.
O foco errado do mercado regulado
Enquanto o mercado regulado concentra quase toda sua energia no combate ao mercado ilegal, talvez esteja na hora de ajustar o foco.
A batalha mais urgente agora não é apenas contra quem opera fora da lei, mas a favor de garantir que quem se diz regulado cumpra, na prática, aquilo que a regulação exige.
Hoje, infelizmente, fazer o certo ainda é exceção.
E enquanto isso continuar sendo verdade, o mercado regulado seguirá prometendo um produto robusto e entregando algo diluído — algo que, aos olhos do consumidor, não parece muito diferente do ilegal.
Confiança sustenta o mercado, não o rótulo
Nenhuma indústria se sustenta por muito tempo vendendo algo que frustra seu consumidor.
Rótulo ajuda a vender uma vez.
Confiança sustenta o mercado no longo prazo.
No fim, vale a mesma lógica do supermercado:
quem entrega o que promete constrói relação.
quem vive de “sabor” perde o cliente.
A pergunta que fica é simples:
vamos servir a receita de verdade ou continuar requentando a sopa de letrinhas?
Thiago Iusim
Founder & CEO — Betshield Responsible Gaming
🌐 www.thebetshield.com