A Crypto.com entrou no centro de uma nova controvérsia ao lançar um aplicativo de mercados de previsão que permite negociação de margem — prática que, na essência, equivale a apostar com dinheiro emprestado. A iniciativa aproxima perigosamente o modelo da plataforma ao velho esquema do apontador informal ou das casas offshore que operam sem regras rígidas de jogo responsável.
A novidade vem por meio do aplicativo OG, apresentado pela empresa como “uma nova experiência de mercado de previsão”. Segundo a própria Crypto.com, trata-se da primeira plataforma do setor a oferecer negociação alavancada nesse tipo de mercado.
O que é negociação de margem — em termos simples
Negociação de margem significa operar usando crédito, ou seja, apostar ou “investir” com dinheiro que não é seu. No universo das apostas esportivas, isso é o equivalente direto a apostar fiado.
Antes da regulamentação das apostas nos Estados Unidos, esse era o modelo padrão: o apostador ligava para o bookmaker local, fazia a aposta sem depósito e, se perdesse — o que estatisticamente acontece no longo prazo — ficava devendo.
É justamente para evitar esse tipo de situação que casas de apostas regulamentadas são proibidas de oferecer crédito aos clientes, um dos pilares básicos das políticas de jogo responsável.
Por que a Crypto.com consegue fazer isso
A Crypto.com opera o OG como um mercado de contratos de eventos regulamentado pela CFTC (Comissão de Negociação de Futuros de Commodities dos EUA), e não como uma casa de apostas esportivas tradicional.
Isso faz com que a empresa não esteja sujeita às mesmas restrições impostas aos operadores de apostas, o que inclui a proibição de crédito ao apostador. É exatamente essa brecha regulatória que está gerando forte preocupação no setor.

Riscos da negociação alavancada
A negociação de margem já foi responsável por bilhões de dólares em perdas no mercado financeiro tradicional e no mercado cripto. Em ativos altamente voláteis, como criptomoedas, a alavancagem transforma oscilações comuns em perdas devastadoras.
Aplicar esse modelo a eventos esportivos — que já envolvem risco por natureza — amplia ainda mais o potencial de prejuízo para o usuário comum.
Para críticos do setor, permitir alavancagem em mercados de previsão é mais um passo na confusão deliberada entre investimento e jogo, algo que reguladores vêm tentando evitar há anos.
Promoções que lembram casas de apostas
No comunicado de lançamento, a Crypto.com também anunciou que o primeiro milhão de usuários do OG poderá receber até US$ 500 em recompensas. A estratégia lembra claramente os bônus de boas-vindas usados por casas de apostas esportivas.
Além disso, a empresa sinaliza incentivos voltados para usuários de alto volume, outra prática comum no mercado de apostas — e que costuma aumentar o risco de comportamento problemático.
Falta de “guarda-corpos” regulatórios preocupa
Em seu discurso de despedida como comissária da CFTC, Kristin Johnson alertou para o risco crescente dos mercados de previsão operarem sem proteções adequadas:
“Temos muito poucas barreiras de proteção e pouca visibilidade nesse mercado. Quando esses contratos passam a ser oferecidos com margem e alavancagem a investidores de varejo, a necessidade de regras claras se torna urgente.”
Seu sucessor, Mike Selig, adotou um tom bem mais permissivo. Embora não tenha tratado diretamente da alavancagem, deixou claro que, sob sua gestão, os mercados de previsão ligados a eventos esportivos continuarão com ampla liberdade regulatória.
Na mesma semana, a CFTC anunciou oficialmente a retirada de uma proposta de 2024 que proibiria contratos de eventos esportivos, políticos ou militares nesses mercados.
Crypto.com trata apostas como “investimento”
Sem tentar disfarçar, a Crypto.com posiciona o OG como uma plataforma onde usuários podem “negociar” esportes como se fossem ativos financeiros.
No próprio comunicado oficial, a empresa afirma que o aplicativo combina:
- acessibilidade de apps de consumo
- engajamento de redes sociais
- rigor de plataformas institucionais
Tudo isso para oferecer contratos de eventos esportivos, políticos, financeiros e culturais.
Na prática, ao abrir o app, o usuário é imediatamente exposto a mercados esportivos, como o “The Big Game”, com linhas, handicaps e apostas em jogadores apresentadas de forma muito semelhante às casas de apostas tradicionais.
Há desde apostas em spreads e MVP até props curiosas, como:
- moeda do cara ou coroa
- música do intervalo
- hino nacional
- banho de Gatorade
Linha tênue entre aposta e investimento
Apesar do discurso financeiro, o funcionamento do OG se assemelha cada vez mais ao de uma casa de apostas esportivas operando fora do arcabouço regulatório tradicional.
Ao permitir apostas com dinheiro emprestado, a Crypto.com reacende um debate crítico nos Estados Unidos: até que ponto mercados de previsão estão sendo usados para contornar regras criadas justamente para proteger o consumidor?
Atenção: este produto da Crypto.com não está disponível para brasileiros
É importante esclarecer um ponto central para o leitor brasileiro: o mercado de previsão OG, lançado pela Crypto.com, não faz parte da oferta disponível no Brasil.
Esse produto foi criado exclusivamente para os Estados Unidos e opera por meio da Crypto.com | Derivatives North America, uma entidade registrada e supervisionada pela CFTC (Commodity Futures Trading Commission) — o órgão regulador de derivativos dos EUA.
Por isso, ao acessar o site ou aplicativo da Crypto.com a partir do Brasil, o usuário não encontra esse tipo de mercado, nem contratos esportivos, nem negociação alavancada ligada a eventos. A versão brasileira da plataforma oferece apenas os serviços permitidos pela regulação local, como compra, venda e custódia de criptoativos.
🇧🇷 O brasileiro pode acessar esse mercado?
Na prática, não.
- O produto OG é bloqueado por jurisdição
- Exige verificação de identidade compatível com as regras dos EUA
- Está vinculado a uma entidade regulada americana, não à operação global ou brasileira da Crypto.com
Ou seja: não é um recurso disponível legalmente para usuários brasileiros, nem algo que esteja “escondido” no app nacional.
Por que esse modelo gera preocupação?
Mesmo sendo legal nos EUA, o formato levanta alertas importantes.
O OG permite negociação alavancada em mercados de previsão, o que, na prática, significa assumir posições com dinheiro emprestado sobre eventos esportivos, políticos ou culturais. Esse tipo de estrutura aproxima o produto muito mais de apostas a crédito do que de um investimento tradicional.
Em mercados voláteis — especialmente quando combinados com alavancagem — o risco de perdas rápidas e significativas aumenta consideravelmente. Por isso, esse tipo de operação é proibido em casas de apostas regulamentadas e também não faz parte das diretrizes de jogo responsável adotadas em mercados regulados.
O ponto central
Embora a Crypto.com apresente o OG como uma ferramenta para “investidores de varejo”, o produto mistura linguagem financeira com mecânicas típicas de apostas, o que pode gerar confusão e incentivar comportamentos de risco — especialmente para usuários menos experientes.