Mercados de previsão ganham força nos EUA e acendem alerta no setor de apostas às vésperas do Super Bowl

Mudança de coração da NFL é manchete de notícias do mercado de previsão na véspera do Super Bowl

Poucos dias antes do Super Bowl — o maior evento esportivo e de apostas do ano nos Estados Unidos — a NFL sinalizou uma possível mudança de postura em relação aos chamados mercados de previsão, um modelo que mistura elementos financeiros e apostas, mas que opera fora do ecossistema tradicional das casas de apostas esportivas.

O tema ganhou força após declarações de Jeff Miller, vice-presidente executivo da NFL, durante entrevista ao Front Office Sports, em São Francisco, cidade-sede do Super Bowl. Segundo o executivo, a liga passou a enxergar essas plataformas não apenas sob a ótica do risco regulatório, mas também como ferramentas de engajamento do torcedor.

“Não há dúvida de que passaremos muito tempo falando sobre isso nos próximos meses, talvez até anos. É uma ferramenta de envolvimento dos torcedores, e isso tem sido positivo para a liga”, afirmou Miller.

A fala chama atenção porque, historicamente, a NFL manteve distância dos mercados de previsão, especialmente após abraçar as apostas esportivas regulamentadas, vistas como um caminho mais seguro do ponto de vista legal e institucional.


O que são mercados de previsão — e por que geram controvérsia

Os mercados de previsão permitem que usuários negociem contratos baseados em eventos futuros — como resultados esportivos, eleições ou indicadores econômicos — funcionando mais como bolsas de contratos do que como apostas tradicionais.

Para a NFL, o problema sempre foi regulatório. Em dezembro, Miller reforçou essa preocupação em um depoimento oficial ao Congresso dos EUA, alertando que muitos desses contratos esportivos são oferecidos em estados onde as apostas esportivas não são legalizadas, escapando da supervisão dos reguladores estaduais.

“Esses contratos estão fora do alcance das autoridades reguladoras estaduais e das salvaguardas impostas à indústria de apostas esportivas”, escreveu Miller ao Comitê de Agricultura da Câmara, durante audiência da CFTC (órgão regulador de derivativos nos EUA).

O comissário da NFL, Roger Goodell, também já havia demonstrado cautela:

“Não é algo em que estamos prestes a entrar. Vamos observar como isso se desenvolve.”


Ambiente regulatório em transformação

Apesar do discurso historicamente conservador, o cenário começou a mudar. Alterações recentes na liderança da CFTC e uma postura mais permissiva em relação a novos produtos financeiros reacenderam o debate sobre a legalidade e o futuro dos mercados de previsão ligados ao esporte.

Esse movimento explica o tom mais aberto da NFL, ainda que sem endosso formal às plataformas.


Chris Christie vê resistência interna na NFL

O ex-governador de Nova Jersey, Chris Christie — figura central na derrubada do PASPA, que abriu caminho para a legalização das apostas esportivas nos EUA — comentou o tema em entrevista à CBS News.

Segundo ele, a NFL ainda mantém resistência institucional, evidenciada pelo bloqueio de anúncios de mercados de previsão durante a transmissão do Super Bowl pela NBC.

“Não acho que o chefe (Roger Goodell) esteja convencido disso ainda”, afirmou Christie.


Kalshi chama atenção, mas números exigem cautela

O interesse pelos mercados de previsão cresceu junto com os playoffs da NFL. Em janeiro, o aplicativo Kalshi atingiu cerca de 3 milhões de downloads, número superior ao registrado no mesmo período por gigantes como DraftKings e FanDuel.

Apesar disso, especialistas alertam que downloads não equivalem a volume financeiro ou engajamento contínuo.

“Muitos usuários baixam por curiosidade, fazem uma operação ou nenhuma, e não voltam”, explicou Jordan Bender, analista do Citizens.

Ainda assim, o volume chamou atenção do mercado, especialmente por se tratar de uma plataforma que não é uma casa de apostas esportivas tradicional.


Estratégias de marketing fora da TV

Embora proibidas de anunciar durante a transmissão nacional do Super Bowl, plataformas de previsão encontraram alternativas. A Kalshi, por exemplo, lançou uma parceria com o Venmo, permitindo que usuários financiem contas diretamente pelo aplicativo de pagamentos.


Alertas dos estados e riscos ao consumidor

O crescimento do interesse também levou autoridades estaduais a emitirem alertas. Procuradores-gerais do Arizona e de Nova York advertiram consumidores sobre os riscos desses mercados, classificando-os como operações não regulamentadas, sem as mesmas proteções das apostas esportivas legais.

Outro ponto sensível é a idade mínima: enquanto casas de apostas exigem 21 anos em muitos estados, diversos mercados de previsão permitem usuários a partir dos 18.

“Eles podem parecer semelhantes às apostas regulamentadas, mas carecem de proteções adequadas ao consumidor”, afirmou o comunicado oficial do Arizona.


Por que isso importa para o mercado brasileiro

Embora esse debate esteja centrado nos Estados Unidos, ele serve como termômetro regulatório global. Mercados de previsão testam os limites entre apostas, derivativos financeiros e engajamento digital — um tema que inevitavelmente chegará a outras jurisdições, inclusive ao Brasil.

Para operadores, investidores e reguladores, o recado é claro: novos modelos estão surgindo mais rápido do que as leis conseguem acompanhar. E, como já aconteceu com as apostas esportivas, quem se antecipa ao debate tende a sair na frente.

Conclusão

A NFL ainda não abraçou oficialmente os mercados de previsão, mas o tom mais brando adotado às vésperas do Super Bowl indica que o tema deixou de ser apenas uma ameaça regulatória e passou a integrar o debate estratégico da liga.

Para investidores e operadores do setor, o movimento sinaliza atenção redobrada: trata-se de um segmento em crescimento, com forte apelo tecnológico e de engajamento, mas que segue cercado por incertezas legais e institucionais — especialmente fora do ecossistema tradicional das apostas esportivas regulamentadas.

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