Um tribunal federal do Tennessee decidiu a favor da Kalshi, empresa americana de mercados de previsão, e reforçou a divisão jurídica nos Estados Unidos sobre a legalidade dos contratos de eventos esportivos, modelo que muitos comparam a apostas esportivas.
A decisão representa um novo capítulo no embate entre plataformas de prediction markets e reguladores estaduais de apostas, tema que impacta diretamente o debate global sobre o que é aposta esportiva, derivativo financeiro e mercado de previsão — assunto cada vez mais relevante também para o mercado brasileiro de iGaming e apostas.
Entenda o caso: o que é a Kalshi e por que isso importa
A Kalshi opera um mercado de previsão regulado nos EUA, onde usuários negociam contratos baseados em eventos futuros, como política, economia e, mais recentemente, resultados de eventos esportivos.
A discussão central é:
👉 esses contratos são apostas esportivas (e deveriam seguir as leis estaduais de jogos) ou são derivativos financeiros (“swaps”), regulados em nível federal?
Essa diferença é crucial porque, se forem considerados swaps financeiros, a empresa ficaria sob a supervisão da Commodity Futures Trading Commission (CFTC) — e não das comissões estaduais de jogos.
O que o tribunal do Tennessee decidiu
A juíza federal Aleta A. Trauger, do Tribunal Distrital dos EUA no Tennessee, concedeu uma liminar a favor da Kalshi, suspendendo a tentativa do estado de barrar a oferta de contratos esportivos da plataforma.
Na decisão, a juíza entendeu que:
- Os contratos da Kalshi podem ser enquadrados como “swaps” pela legislação federal (Commodity Exchange Act – CEA)
- Um “resultado esportivo” também pode ser considerado um evento
- A lei federal tende a prevalecer sobre a regulamentação estadual de apostas esportivas nesse caso
Com isso, o Tennessee fica temporariamente impedido de bloquear a atuação da Kalshi no estado.
Por que isso gera divisão entre os tribunais dos EUA
A decisão do Tennessee vai na direção oposta de outros tribunais importantes:
📍 Nevada
Em Nevada, a Justiça decidiu que:
- Resultado de jogo não é um “evento”, logo
- Contratos esportivos da Kalshi não são swaps financeiros
- Portanto, ficam sujeitos às leis estaduais de apostas
📍 Maryland
O tribunal até admitiu, de forma provisória, que os contratos poderiam ser swaps, mas concluiu que:
- A lei federal não anula automaticamente as leis estaduais de jogos
- Os estados continuam tendo poder para regular apostas esportivas
📍 Massachusetts
A Justiça estadual determinou que a Kalshi:
- Não pode oferecer contratos esportivos sem licença de apostas
- Reforçando o poder local sobre esse tipo de operação
Por que isso é relevante para o mercado brasileiro de apostas
Esse embate jurídico nos EUA antecipa debates que o Brasil inevitavelmente vai enfrentar, como:
- Diferença entre aposta esportiva tradicional e mercados de previsão
- Limites entre regulação financeira e regulação de jogos
- Riscos de “zonas cinzentas” regulatórias
- Proteção ao consumidor em novos formatos de apostas baseadas em eventos
Com a regulamentação do mercado brasileiro de apostas e iGaming em andamento, decisões como essa mostram como novos modelos de produto podem pressionar o regulador e exigir interpretações jurídicas mais modernas.
Próximo passo: o tema pode chegar à Suprema Corte dos EUA
Com decisões conflitantes em Tennessee, Nevada e Maryland, cresce a chance de o caso chegar à Supreme Court of the United States.
Se isso acontecer, o julgamento pode:
- Definir definitivamente se contratos esportivos em mercados de previsão são apostas ou derivativos
- Criar um precedente global para o setor de iGaming
- Influenciar regulações em mercados emergentes, como o Brasil
Resumo rápido
- A Kalshi ganhou no Tennessee e pode seguir oferecendo contratos esportivos
- Outros estados americanos estão barrando esse modelo
- Os tribunais dos EUA estão divididos
- O tema mistura apostas, finanças e regulação federal
- O desfecho pode influenciar o futuro do iGaming e das apostas no mundo todo